TEXTOS DO AUTOR

FALSA MODÉSTIA

Ah! como essa característica dele incomodava. Que ingenuidade — ignorava que a toda ação corresponde uma reação. E ele achava que era bullying.

Eu fui o quinto a falar no grupo. Todos haviam falado sentados. Só eu me levantei. Falei de pé. Falei alto e bom som. Sei que impactei logo de início. Difícil não perceber que eu sofrera bullying durante quase toda a infância e adolescência.

Por ser muito forte, quantas e quantas vezes tive de enfrentar dezenas de invejosos à noite quando eu caminhava a pé para casa.  Numa noite botei quatro pra correr. Já quando saía de bicicleta, aquela importada, praticamente ninguém me acompanhava nas pedaladas. Era bullying puro! Mesmo!

Por ser bonito e chamar demais a atenção das garotas, minhas namoradas não confiavam nem um pouco em mim. Diziam que meus dotes físicos jamais permitiriam uma união estável e duradoura.  A coisa que mais me atrapalhou na vida foi o fato de ter olhos azuis. Mas que culpa eu tenho disso? O pessoal de olhos verdes até que tinha por mim certo respeito. Mas os de olhos castanhos, estes viviam me atazanando. De olhos pretos, só encontrei um. Mas era neutro.

Eu não fumava quando adolescente, mas tive que me curvar à moda. E aprendi a fazer mil estripulias com a fumaça. Estripulias criativas. Revolucionárias. Quando fumava, eu era um show. Certa vez, levei uma cuspida, que veio do mezanino na hora das baforadas. Na hora desejei muito que a tecnologia inventasse uma forma de identificar as pessoas pelo cuspe. Acho que já fazem isso hoje em dia com os exames de DNA.

Quando morei por três meses numa república, foram muitas as dificuldades. A questão primordial era limpeza e divisão das tarefas. Meus argumentos nunca foram reconhecidos pelos colegas de quarto.  E eles nunca se conformaram por eu não ter chulé. Certa vez esconderam meu polvilho granado.

Acho o máximo que eles só tivessem foto de mulher pelada. Eu tinha também. Mas ninguém se conformava de eu ter umas trinta fotos minhas na parte interna da porta do guarda-roupa. Ora, fui um precursor do selfie. Eu fazia selfie analógico.  E a gente faz selfie da gente mesmo, claro.

Quando terminei o segundo grau, meus pais me deram um carro. Todos criticavam. Diziam das muitas facilidades em minha vida. Mas andar no meu carro, todo mundo queria.

Na aula de redação, a professora sempre pedia para que eu lesse algo em voz alta. E todos morriam de inveja com meu timbre, minha dicção e impostação. Só que ninguém prestava atenção. Só a professora.

Quando terminei minha fala, vieram duas perguntas.

Qual seria meu maior defeito? Não titubeei. Falei da minha luta com a timidez.

Quanto a qual minha maior qualidade, não teve jeito, falei de duas — humildade e modéstia.

Eles riram. Todos. E eu achei que o fantasma do bullying havia voltado.

 

Aristides Coelho Neto, 26.11.2015

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