TEXTOS DO AUTOR

JOIO E TRIGO

Este é um texto cheio de dúvidas. A começar do título. Não sabia se trigo-joio ou joio-trigo. Optei pelo que me pareceu mais eufônico. Dizem que essa reflexão indica crise existencial.

Fiz um desabafo em março último, lá no feicebuque. No texto “O que é que eu sou afinal?”, confessei estar numa encruzilhada. Mas agora que ando escutando falar incessantemente de joio e de trigo, pronto! Mais uma dúvida em minha frágil cachola. Seja qual for o tema sobre o qual me manifesto, vem a dúvida, não só em mim, mas no interlocutor presente ou virtual. Como me enquadrar — direita ou esquerda? Qual o rótulo? Abomino veementemente a volta dos militares ao poder, que minorias pretendem recomendar como remédio para a crise. Ou seja, a abominável volta dos anos de chumbo. Ao mesmo tempo não entendo o amor desenfreado do nosso governo pelo Maduro, da Venezuela, e Ahmadinejad e Hassan Rouhani, do Irã.

Quais ditaduras tenho de apoiar para conseguir meu rótulo em definitivo? Ora, se não quero ditaduras!... Mas tenho vontade de ir a Cuba, sentir presencialmente as dificuldades por que passam os cubanos. Deixar-me contagiar pela musicalidade e sentimento de superação daquele povo amável e sofrido. Abaixo as torturas de Guantánamo! Estados Unidos? Não tenho vontade de conhecer. Talvez eu tenha assimilado tudo que Noam Chomsky falou em “O que o Tio Sam realmente quer?”. Espero mesmo que o império entre em decadência, em consonância com o que prevê a história da humanidade. E parem de fomentar guerras intermináveis. Sei que o pensamento de governo dos EUA não se coaduna com o de grande parte dos cidadãos comuns americanos. Em todos os lugares do mundo há gente sensata. Quero também a criação do Estado Palestino. Já passou da hora. Abaixo o confinamento cruel de irmãos nossos de humanidade na Faixa de Gaza. Extremismos? Ora, não há que se adjetivar grupos ou pessoas de forma generalizada. Os atos de selvageria que assolam a mídia não podem e não devem comprometer o mundo islâmico.

Quero a punição de todos os culpados pelos desmandos com dinheiro público no Brasil, sejam de que partidos forem. Não concordo com pagamento de militantes para fazer coro orquestrado. Não concordo com a afirmação arrogante de que os manifestantes de 15 de março de 2015 “eram aqueles que não votaram na presidente Dilma”. Votei na Marina no primeiro turno, quase votei em Dilma no segundo. Estou desistindo dela somente agora. E se provarem algo mais acintoso contra Dilma, que pague, como todos os culpados.
Impeachment? Não há motivo ainda. E trazer Michel Temer ao trono? Ai ai ai, é de se pensar nessa tragédia.
Sou a favor do Bolsa Família, com bom monitoramento. Acho que em alguns locais a miséria é tanta que nem a quem pedir a pessoa tem. Com o dinheiro que vai pelo ralo, nós erradicaríamos a miséria neste nosso Brasil. Fui admirador de Covas. Participei das manifestações pelo Diretas Já. Ajudei a botar o Collor pra fora. Creio que só a Educação vai mudar os destinos deste país, sem contar o Evangelho na família, para preparar governantes mais voltados para o bem comum, embora isso vá consumir umas três gerações. Abomino a arrogância que toma conta dos fundamentalistas do partido de Dilma. Não vejo as pessoas que destoam de ideias e preceitos como burras. Ora, burro seria eu de não valorizar os que argumentam contra. Até creio que todas as correntes políticas, em princípio,  querem o bem comum. Se cada um enveredou por um caminho diverso para chegar ao objetivo, quero crer que os bem-intencionados o fazem com amor à causa. Há de se entender as diferenças. Mas como é difícil!... 
Quando estou quase finalizando o desabafo, me perguntando, afinal, o que é que eu sou — direita, esquerda, moderado, sonhador? o que é mesmo que eu sou?, me vem à mente mais uma dúvida — se sou joio, se sou trigo... É que andam recorrendo demais a essa parábola evangélica relatada por Mateus. E apelando demais para situações em que salvadores e usurpadores da pátria se confundem. Quando digo pátria, posso estar me referindo a instituições, a tudo. Só me faltava agora introduzir essa outra encruzilhada na reflexão...

Nunca vi o verdadeiro joio na natureza, que tanto se parece com o trigo. Mas todo mundo quer ser mesmo é trigo. E é tanto joio com pele de trigo... É tanto trigo que não passa de joio. É tanto joio treinado para ostentar farinha, digo, carinha de trigo...

Há situações em que o sujeito tem praticamente escrito na testa — sou joio! Mas ele não admite. Foi o caso de Joio Carlos. Foram admoestados, ele e o Joio Soares. Não queriam saber de trabalhar, isso lá na empresa pública do interior do Acre.  Joio Soares se aposentou. Mas Joio Carlos continuou atuando com a displicência de sempre, o que o levou a ser transferido do Acre para Rondônia. É que seu chefe, Rô Trigo, pedira arrego. Cansou. E Joio Carlos lá ficou encostado, em Rondônia. Como é difícil mandar funcionário público para o olho da rua...

Quando mudou o governo, Joio Carlos voltou para o Acre por cima, desta vez para ser chefe justamente de quem o havia despachado — pois é, agora era chefe de Rô Trigo. Guinadas da vida. E quem era joio virou trigo. Alguns que eram trigo continuaram trigo, fiéis aos seus princípios. Só uma pequena parte optou por deixar de ser trigo e chafurdar-se nas poças de joio. Convivência. Em suma, virou uma confusão!

Essa confusão reina em muitos lugares. Isso daria filme semelhante àqueles de alienígenas que se misturam aos terráqueos, e você passa o tempo todo sem saber quem é quem de verdade.

Só sei que numa inusitada batida policial, estava eu no local. Levaram algemados uns dez que eram joio e acho que sete que eram trigo. Ufa! Nunca vi coisa igual. Foram identificados alguns pelo rótulo. Outros pela índole. Outros pelo código de barras, já que são produtos do meio, dizem os antropólogos. Quando o policial de bazuca, roupa preta, capuz e algemas penduradas na cintura, me perguntou se eu era joio ou se era trigo, não tive dúvida — eu disse que era quibe.

Aristides Coelho Neto, 28.5.2015

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