TEXTOS DO AUTOR

BRASÍLIA, IGUAL AO RESTO

Enquanto o caldeirão da corrupção ferve, nós, otimistas de carteirinha, não perdemos a esperança. E não venham falar de Brasília — O DF é igualzinho ao resto do país

 

Agora é o Pró-DF o assunto da hora. Um programa já conhecido, eivado de vícios, tráfico de influência e de dinheiro. Recentemente tive noticias, já ao final da campanha eleitoral de 2010, que certa empresária buscava um local para instalar sua clínica. E um figurão foi muito objetivo com essa empresária. Claro que pisava em terreno firme, pois não era iniciante na política, e sim raposa velha.  Afirmou que, se eleito ­— estava prestes a sê-lo —, conseguiria facilmente o terreno de que ela precisava, por meio do Pró-DF.  E o preço era um milhão de reais. E a empresária assustou-se com o valor e perguntou se o montante poderia ser parcelado. Ao que o figurão esclareceu: claro que não, o milhão era para ele; o valor do lote do Pró-DF era assunto a ser tratado a seu tempo. Vale dizer que o emérito político não era da área de saúde: clínica é apenas um detalhe sem importância, já que em lote do Pró-DF se instala qualquer coisa. Muita água rola, porém, entre a demanda e a oferta. E que a nossa vã filosofia nem imagina. Ou imagina levemente.   

Olho brasileiro - brasipor_gilgiardelli.wordpress.comE já que estamos falando de coisas erradas, acho que a população do Distrito Federal desconhece as denúncias de falcatruas que existem em torno de leitos de UTI que a rede pública utilizava na rede privada. Quando tive conhecimento, sempre sem provas contundentes, fiquei a pensar nos métodos de Durval  Barbosa, nosso cineasta-da-câmera-parada e delegado, que tantos vídeos fez no deprimente Big Brother da Corrupção no DF, que resultou na operação Caixa de Pandora, em que ele também era protagonista, diga-se de passagem mas em alto e bom som. Esse know-how que Durval desenvolveu, na condição de policial às avessas, deveria ser mais divulgado, estendido também a nós todos, cidadãos de bem. Mais bem aparelhados e treinados, quem sabe melhor contribuiríamos para a moralização da nossa tríade tão desacreditada — executivo, legislativo e judiciário.

Agora também Benedito Domingos é alcançado pelos holofotes, nos indícios de favorecimento na reforma da fonte, nas contratações de enfeites de Natal. E Odilon Aires... E Bandarra... e Roriz novamente, como sempre. Mas a gente nem imagina a quantidade de processos amoitados, tornando infrutíferas e lerdas as tentativas de punir governantes, políticos e funcionários inescrupulosos. Essa impunidade motiva  novos crimes, sabemos. É como combustível para maracutaias.

Em um encarte chamado Metrópole, que acompanhou a edição de 23.1.2011 do Correio Popular, de Campinas, numa entrevista a Henrique Nunes, deparamos com um manifesto da jornalista Alexandra Langoni Dias. Ela é de Campinas, está recentemente em Brasília, e se esforça em esboçar um retrato da capital da República. A observação de Langoni, a entrevistada, é recorrente — muito concreto e pouca humanidade, cidade fria, em que subsiste maneira peculiar de dirigir. O entrevistador, por sua vez, cai no chavão que já deveria ter sido banido do imaginário das pessoas — falta de esquina, e de padarias e botecos nas famigeradas esquinas ausentes.  Ora, Brasília não é apenas o Plano Piloto. As peculiaridades que o Distrito Federal ostenta colocam Brasília e entorno na condição de área metropolitana com todos os defeitos das demais cidades brasileiras.

E não venham dizer que Brasília é mais corrupta do que outras cidades — as "peças raras" que se fincam no Senado e Câmara Federal por força do voto equivocado, ou do voto vendido, ou do voto iludido, é o resto do país (São Paulo, Acre, Maranhão, Rio, Piauí etc. etc.) que manda para cá. E como grudam nas cadeiras... Brasília está tão igual ao resto do Brasil, que até os corruptos já estão nascendo aqui pelo Planalto Central, prontos para assumir seus cargos, de olho no benefício próprio.  Não, corrupção não é privilégio de determinada região... Corrupção não é questão geográfica — é própria do ser humano ainda descristianizado e egoísta, mais ou menos despido de valores éticos e morais.

Será mesmo que Brasília é fria? como disse Langoni? A menção aqui é no sentido de calor humano. Bem não podemos concentrar essa análise em bairros de elite. As cidades-satélites têm características bem diferenciadas. Ou seja, aqui em Brasília — no sentido lato, que abrange o Distrito Federal —, deparamos com rica diversidade: encontramos de tudo. E nossas favelas, a diferença para as do Rio é que são planas. Mas até residências precárias em áreas de risco e em encostas temos também, ali pelos lados da Fercal. E no próprio Lago Norte, em que a paisagem dos morros começa a ser densificada. Então, nesse aspecto Brasília é quente...

Será mesmo que o brasiliense tem uma maneira peculiar de dirigir? Bem, se não for carro, for órgão público, este vai ser um desafio do governador Agnelo Queiroz: dirigir com rédeas curtas os dirigentes... porque dinheiro e poder fazem cabeças e cidades frias (ou quentes) ferverem, nas pessoas daqueles que querem se locupletar. Isso é regra em todo país em que reina a impunidade. Aliás, por que Durval Barbosa tem ainda a prerrogativa de ir até a festinhas?

Nesse ponto então, já podemos falar da proposta de Agnelo. Em seu discurso de posse, ele reconhece que "as nuvens tempestuosas de uma das piores crises do DF ainda não se dissiparam". O que Agnelo afirma na posse representa um sentimento geral nosso, moradores e cidadãos do Distrito Federal: "A situação que nós encontramos, com o serviço público no caos, dívidas, obras paralisadas, é fruto de um jeito de governar que usa o dinheiro público para benefício pessoal. Não é aceitável que a capital federal seja percebida como sinônimo de corrupção, negociatas e práticas incompatíveis com o serviço público. Não é possível que seja motivo de achincalhe e piada nacional". Ótimo, Agnelo compreende! É assim que pensamos todos nós.

Além desse enorme desafio que se apresenta para o novo governador, há vários outros tão delicados quanto: identificar as pessoas de bem que estão no governo; afastar meliantes e bandidos ao menor indício; demitir quando necessário a bem do serviço público; agir com cautela no estabelecer alianças com sindicatos que estendiam o tapete vermelho a Roriz, o homem azul. No que concerne à herança azul deixada por Joaquim Roriz (ou seus alunos) há de se ter sensibilidade para distinguir simpatizantes azuis, que podem muito bem ser técnicos de valor que muito têm a oferecer ao poder público. Mas também identificar aqueles azuis nocivos, fiéis até a morte a Joaquim, que tudo farão para solapar projetos e iniciativas, numa compreensão desvirtuada e insana do que é lealdade. Separar joio de trigo é tarefa delicada, difícil.

E para finalizar — este texto está ficando longo —, gostaria ainda de me reportar a agosto de 1996. Na qualidade de supervisor de obras eu apontava uma excrescência que acontecia numa obra pública em Ceilândia. Tratava-se de  superfaturamento de andaimes que excediam o valor da praça em quatro carros populares a cada mês. Não importa se os carros populares eram mais ou menos baratos que hoje. Como tenho mania de achar que posso escrever sem maiores preocupações tudo aquilo que falo, escrevi isso num processo, após uma detalhada exposição de motivos e coleta de preços fundamentada. A menção aos carros chocou a diretoria. Meu diretor, em represália, quis (eu soube depois) me mandar para bem longe, lá para os limites do DF, já que não podia me mandar para o Afeganistão. Perceberam o quanto a gente contraria interesses que a olhos nus não são vislumbrados?  E por uma lamentável inversão de valores, o denunciante passa a ser tratado como  um réu.

Quanto à impunidade, sinceramente, não sei como combatê-la. Já faz mais de ano que levei denúncia ao Ministério Público sobre pagamentos indevidos no local em que eu trabalhava em 2008. Ministério Público, acho, se ressente de efetivo também, como em todos os lugares. E eu nem queria prisão ou multas. Queria apenas uma admoestação por escrito por quem de direito a quem não tem medo de punições e acha que está acima da lei.

Talvez a saída seja mesmo (e apenas) deixar extravasar, deixar fluir no ato de escrever, denunciando, desabafando, deixando claro nosso grito de insatisfação, nossa vontade de que alguém nos ouça. E esperar, confiante numa outra Justiça, que há de surpreender aqueles que escaparem impunemente da justiça dos homens. Mas esperar por represálias também, não se iludam.

Ando mais animado nesse aspecto, já que um grande amigo ligado a Agnelo me impulsionou: "Continue nessa linha, que é o papel e dever de todo cidadão. Caso venham represálias, eu garanto a sua integridade, pelo menos até 2014".

Amém. Que assim seja!

Aristides Coelho Neto, 1º fev. 2011

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Nota — Este texto se chamava "Os rumos e arrimos de Agnelo Queiroz". Mudei em 30.5.2014 para "Brasília, igual ao resto". Nesta data, o grande amigo que ia me garantir a integridade já pulou fora do governo Agnelo faz algum tempo...

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