E por falar em escrever

 
Mentiras e mentirinhas
Desde cedo a gente escuta que não deve mentir. Mas com o passar do tempo, percebemos que é muito difícil viver sem uma mentirinha. Dizem até que a mentira é regra para se viver em sociedade.

Desde criancinha que a gente escuta que não deve mentir. Mas com o passar do tempo, percebemos até intuitivamente que é muito difícil viver sem uma mentirinha.  Segundo Laura Cavallieri, a mentira “é fundamental para se viver em sociedade, e regra número um da boa educação”.

 

É muito bom ouvir aquela mentirinha inofensiva e polida quando se liga para uma pessoa e ela diz: “Que coincidência. Eu estava pensando em você neste minuto”.

 

Já os poetas e escritores mentem por dever de ofício.  Ah! se os poetas parassem de mentir... Alguns, quanto mais mentem, mais se tornam geniais.  Outros, quando não mentem, se tornam insossos.  E o leitor cobra! para que voltem a mentir colorido. Se é que mentira tem cor.

 

Já os políticos mentem quase que para sobreviver.  Naquilo que eles pensam que é vida, claro. Bem, que fique claro que políticos não têm leitores, e sim eleitores. O engraçado é que quando os eleitores não são leitores mesmo, eles acabam não sabendo que o político em quem votou é um mentiroso compulsivo. E o político volta à cena. Porque o eleitor não é ledor.  Mas o que pesa muito para que um político volte, apesar das mentiras, é a sua capacidade de encenar.

 

Mas voltemos à necessidade da mentira. Quando é necessária mesmo, você já percebeu, a mentira é chamada de mentirinha, sempre no diminutivo. Muitas vezes é usada com o intuito de ajudar ou de evitar uma catástrofe. Porque há verdades que têm alto poder destruidor. Verdades assim são freqüentemente usadas por pessoas de sinceridade exacerbada que imaginam que não-mentir ou não-se-calar contribui em algo. Deviam saber que isso é um defeito e nunca uma qualidade. Quantas amizades e outros relacionamentos afetivos não foram por água abaixo por causa da incontinência verbal recheada de “sinceridade”.

 

Já o excesso de mentira é chamada de lorota. Há gente que não percebe quando os exageros mentirosos se tornam uma rotina. Para estes existem vários caminhos – o da política (equivocada, claro), o do divã do psicanalista, o da pesca, quem sabe. O que leva um pescador a mentir muito talvez seja o excesso de umidade, mas isso não está provado. Principalmente porque é uma teoria que inventei neste instante. 

 

Mas há situações em que a verdade é dever moral. E a gente vai se perguntar: “Quando usar da mentira ou da verdade?” ou “Quando a gente vai saber o momento de usar uma ou outra?”.

 

Querem que eu responda mesmo? Acho que é apanhando. Depois de apanhar muito, a nossa intuição vai se aprimorar. Mas acho que a regra áurea mesmo é só fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem. Funciona. E como!

 

 

Aristides Coelho Neto, 18.2.2008